PASTORAL FÉ E POLÍTICA

Arquidiocese de São Paulo

ptarzh-CNenfrdehiitjarues

Temos 46 visitantes e Nenhum membro online

Padre Valeriano

Hoje, dia 28 de junho, quero primeiramente lembrar o aniversário da Balbina e juntamente com todos os ouvintes mandar-lhe os parabéns. Está para deixar o Brasil o Pe. Valeriano Paetoni. De origem italiana e missionário da Consolata, o Padre Valeriano chegou ao Brasil há mais de 30 anos, sendo que os últimos 20 anos aproximadamente ele esteve na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Imirim, RE Santana.

Como profundo seguidor do Bom Pastor e exemplo de cidadão, o Pe. Valeriano construiu no espaço da igreja a Casa Siloé. Uma casa que abriga desde 1994 crianças portadoras do vírus HIV. Alguns anos mais tarde, uma criança da paróquia necessitava de um transplante e os médicos aconselharam os pais a colocar cartazes pela cidade com uma foto da filha, solicitando doações. Os pais assim o fizeram e com o apoio do Pe. Valeriano foram deixados alguns cartazes também na paróquia. Com o dinheiro necessário para fazer o transplante, a criança – Suzane – teve alguns problemas de saúde que não permitiam o transplante na época e veio a falecer. Seus pais, sem ter como devolver o dinheiro arrecadado, pois as doações eram feitas em conta corrente e sem identificação, doaram o dinheiro ao Pe. Valeriano com a finalidade de que ele construísse outra casa de apoio para abrigar crianças soropositivas. O Pe. Valeriano assim o fez e foi comprada uma casa próxima da paróquia e batizada com o nome de Lar Suzane.

pe-valeriano-paitoniAs duas casas de apoio sempre abrigaram cerca de 14 crianças cada, sendo que as crianças que negativam, ou seja, as que não foram contaminadas por suas mães são encaminhadas à adoção. O que tem de mais bonito nessa história é que não só as casas de apoio são mantidas pela própria comunidade, com doações, mas principalmente com o dinheiro do dízimo, mas a maior parte das crianças que foram adotadas o foram por voluntários e funcionárias da própria paróquia.
Não sei o número exato de crianças que já passaram pelas casas, que voltaram a suas famílias ou que foram adotadas e também não sei quantas já faleceram, mas sei que o milagre da vida com certeza está presente naquela comunidade.

Minha família mesmo teve a felicidade de adotar duas crianças, sendo que uma delas foi a primeira criança a chegar na casa, a Indaiara. O amor que unia a Indy, como a chamávamos e o padre Valeriano era incondicional. Na época que decidimos adotá-la eu brinquei que seria mais difícil o padre Valeriano permitir sua adoção do que a própria mãe da Indaiara. Ele foi para ela o pai que ela nunca tinha tido até então. Quando falavam sobre a possibilidade do padre Valeriano ter que deixar o Brasil, ou mesmo as casas de apoio, independente dela já ter sido adotada, víamos a aflição em seus olhos. Nos preocupávamos com sua saúde, que já era tão debilitada e que poderia se agravar com um choque desses.

É irônico dizer que agradeço a Deus pela Indaiara ter falecido antes que isso acontecesse. Muitas pessoas dizem que não faz parte do ciclo da vida um pai ou uma mãe ter que enterrar um filhos, mas eu prefiro sofrer pela Indy ter morrido do que vê-la sofrer por perder o pai que tanto amou. Fico imaginando o que se passa na cabecinha das crianças que ainda moram na Siloé. Sua única preocupação deveria ser de estudar e ser feliz. É isso que a Igreja pediu aos candidatos aos Conselhos Tutelares, que zelem pelos direitos das crianças. Pela loteria da vida, como dia o Frei Beto, essas crianças não só nasceram pobrezinhas mas com uma herança não desejada por nenhum de nós: o vírus da AIDS. Desde cedo elas têm que aprender a lutar contra o preconceito e eu pude ver pessoalmente o que é isso, e ainda fazer com que seu organismo lute contra o HIV. Do nada elas têm que tirar suas forças para manter sua saúde. Em Deus elas esperam cada vez que veem uma criança da casa falecer, sem saber que futuro lhes espera.

Essas crianças, cuja única oportunidade de ter uma família foi dada pela iniciativa do padre Valeriano. Uma família formada só por pai, no caso o padre, os irmãos e irmãs que estão na casa podem ser adotados a qualquer momento, os voluntários e os funcionários não são os mesmos de 17 anos atrás; a única referência que essas crianças têm é o Padre Valeriano que por motivos não tão claros parte para a Itália. São Paulo nos diz na Primeira Carta aos Coríntios: "1-Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. 2-Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. 3-Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria."

Rogo a Deus que a mesma benevolência solitada pela Arquidiocese de São Paulo aos candidatos aos conselhos tutelares em prol da sociedade seja usada também pela Igreja em prol das crianças das casas de apoio, principalmente da Casa Siloé.


 

FONTE: O artigo de Marília Amaral nos foi enviado diretamente pela autora, tendo sido primeiramente veiculado pela Rádio 9 de Julho no dia 28 de junho de 2011. Sua reprodução é autorizada pela Rádio 9 de Julho.

 

 

 

Marília Amaral

Marília Amaral
Marília Amaral é integrante da Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo e também apresenta comentários sobre Fé e Política na Rádio 9 de Julho (AM 1.600 KHz/SP). Para falar com Marília Amaral utilize nosso formulário de contato.