PASTORAL FÉ E POLÍTICA

Arquidiocese de São Paulo

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A Resistência Operária entre 1968 e 1990

Os operários, em particular os metalúrgicos, deram enorme contribuição para a produção das riquezas na cidade de São Paulo e participaram diretamente na edificação da própria cidade (indicar o capitulo específico.). Mas não apenas isso. Esses “operadores de máquinas” contribuíram para a organização e tiveram participação direta no movimento popular, no movimento sindical e na vida politica da capital paulista, como veremos a seguir.

Devido à carência da infraestrutura necessária ao bem estar de suas famílias, os trabalhadores metalúrgicos, assim como tantos outros trabalhadores, sentiram a necessidade de colaborar para a organização de movimentos reivindicatórios nos seus bairros de moradia. Foram movimentos de lutas pela implantação de equipamentos sanitários, de luz elétrica, de transporte coletivo e tantos outros. Mas foi principalmente no movimento sindical que sua atuação se fez com muita força e muita persistência.

A construção da periferia da cidade

Porém, a contribuição dos trabalhadores à construção das riquezas e da própria cidade não se deu sem muitos conflitos de interesses. Por isso, a organização da classe foi importante para revelar que a exploração se dava também e para além dos espaços de produção. Por exemplo: famílias de operários se alojavam como podiam, de início, em novos bairros mais afastados do centro, que eram loteados parcialmente, aguardando os melhoramentos que viriam com as cobranças dos novos moradores. Esses melhoramentos e valorização da área permitiam aos “proprietários” reiniciar o loteamento, com terrenos mais valorizados, gerando a especulação imobiliária.
As moradias eram inicialmente muito precárias. Aos poucos, aproveitando os “fins de semanas”, os trabalhadores davam início à construção de mais um cômodo, depois mais um e assim por diante. Anos depois, com a chegada dos equipamentos ao bairro, os empreendimentos imobiliários, aproveitando-se da valorização da área, assediavam financeiramente os moradores, que, premidos pelas dificuldades econômicas, vendiam suas casinhas e buscavam bairros novos para se instalar. Davam lugar a construções mais sofisticadas. No bojo desse conflito de interesses entre “proprietários” de terras urbanas e moradores, a cidade foi se espalhando. Nesse processo de ocupação da cidade as famílias de trabalhadores serviam como instrumento de valorização dos terrenos urbanos, mas eram (e ainda são) pressionadas a migrar constantemente para novos loteamentos, onde o processo de lutas reivindicatórias era – e ainda é – retomado.

Se tal processo já vinha de longas datas, ou seja, desde o início da urbanização, sem dúvidas ele se acelerou com a chegada do novo modelo de produção industrial, que passou a exigir um número bem maior de trabalhadores, migrantes de outras regiões do país. Essas famílias, chegando à grande cidade, não encontravam a infraestrutura necessária para seu alojamento em condições de moradias minimamente decentes.

Organização no local de moradia

A carência de infraestrutura dos bairros periféricos mexeu com a dignidade e a consciência dos trabalhadores, que passaram a se organizar nos no locais de moradia a fim de reivindicar, junto aos poderes públicos, a instalação da luz elétrica, das redes de água e esgotos, do serviço de transporte, além da construção de creches, escolas e postos de saúde. Vieram, com o tempo, as exigências do asfalto, da canalização de córregos e as lutas pela construção de moradias populares. Momento forte da luta por moradia se deu com a conquista da desapropriação da Fazenda da Juta, na Estrada do Sapopemba, e a entrega para os mutirões a construção de centenas de moradias populares. O mesmo processo se deu com a transformação de cortiços na Mooca e Av. Celso Garcia em conjuntos de moradias populares, também pelo sistema de mutirões, em que os próprios trabalhadores encontravam trabalho e se tornaram beneficiários dos incentivos financeiros oficiais.

A organização sindical dos trabalhadores

Desde o início da industrialização esse fenômeno se deu em todos os lugares onde o capitalismo teve seu início e onde se desenvolveu posteriormente. O sindicalismo foi se construindo e organizando suas lutas em busca de direitos históricos, seja no recinto da produção, seja nos ambientes onde suas famílias se instalavam. É, porém, necessário compreender que há diferenças enormes entre as transformações que se deram na Europa e as que se passaram no Brasil. Na Europa, os camponeses e artesões perderam seus meios de produção e se viram forçados a conseguir sua sobrevivência com trabalhos em longas e penosas jornadas nas fábricas que iam surgindo ao longo dos anos. Assim, seu processo de lutas também foi construído durante décadas de experiências individuais e coletivas, criando uma cultura de solidariedade que levou à construção de um poderoso movimento sindical, político e social, que permitiu a elevação progressiva do seu padrão de vida.

No Brasil, com a Revolução de 1930, Getúlio provoca profundas mudanças na economia brasileira e a consequente mudança de poder entre as classes dominantes: da predominância dos grandes fazendeiros do café sobre a economia para uma nascente classe empresarial urbana. Para garantir a implantação do novo modelo, com base na indústria nacional, era necessário atender às reivindicações mínimas da nascente classe operária: descanso semanal remunerado, salário mínimo, férias anuais, reconhecimento oficial dos sindicatos, porém, com rígido controle do Ministério do Trabalho.

A partir do segundo governo de Getúlio Vargas, as lutas sindicais se tornaram mais intensas, até mesmo porque a indústria se desenvolvia e o operariado se encorpava. O PCB (Partido Comunista do Brasil), tendo revisto sua posição política em relação aos sindicatos oficiais, resolve investir com maior intensidade na ação sindical. Assim, vários sindicatos importantes passaram, progressivamente, a receber influencia dos comunistas.. Já nos fins dos anos 50, vários sindicatos importantes estavam sob a direção de seus militantes. No início dos anos 60, o movimento sindical realiza greve massiva em defesa do 13º salário para todos os operários, vitória que se concretiza no ano de 1963, com o apoio de Jango Goulart. As forças políticas de esquerda e o movimento sindical deram, nessa época, apoio total às Reformas de Base defendidas por Jango, fato que precipitou o golpe militar de 64. No período que se seguiu ao golpe militar e a implantação da ditadura no país, uma nova fase do movimento operário se desenvolveu.

No Brasil, a implantação de indústrias já modernas, carente de mão de obra em larga escala, encontrou apoio na organização da legislação trabalhista e no sindicalismo oficial controlado pelo Estado. Para atrair a mão de obra necessária foi preciso elaborar e desenvolver eficiente propaganda dos “benefícios” que a modernidade industrial oferecia e essa mão de obra se encontrava nas pequenas cidades e principalmente no campo, carente de profunda reforma agrária que segurasse o homem na terra. E a migração campo-cidade se deu em massa.

As vantagens oferecidas aos operários brasileiros à época foram, portanto muito diferentes das condições que os primeiros operários europeus encontraram, pois além das concessões feitas por Getúlio, os novos operários contariam também com 13º salário anual, conquistado em 63. Essa grande e rápida migração levou a cidade de São Paulo a crescer desordenadamente, sem o devido planejamento, fato que gerou e continua gerando enormes e graves problemas para as famílias dos trabalhadores.

Mudanças que facilitaram um novo modelo industrial

Em resposta ao avanço da indústria nacional e às pressões do movimento sindical e político, as classe dominantes brasileiras se apoiaram em setores das Forças Armadas para desferir o golpe militar de 1964, impor forte arrocho financeiro às empresas nacionais, amordaçar o movimento sindical e cassar professores e políticos progressistas e de esquerda.

Apesar da perplexidade inicial com o golpe militar, setores do movimento social foram despertando para a nova realidade. Estudantes e operários foram, aos poucos, ensaiando formas de resistência às medidas impostas pelo novo regime. Em 1966, sobretudo em função da lei que permitia vender a estabilidade, que seria trocada pelo FGTS, manifestações de trabalhadores se deram em São Paulo, além de manifestações do movimento estudantil, que se opunha ao acordo MEC-USAID (Ministério da Educação e Cultura e Entidade de Ajuda dos Estados Unidos).

O ressurgimento desses movimentos sociais despertou nos operários a compreensão de que poderiam se opor ao autoritarismo militar e às direções sindicais colocadas pela ditadura como interventoras.

Formação de movimentos de Oposição Sindical

A organização de duas “chapas” de oposição sindical metalúrgica, no ano de 1967, em São Paulo e Osasco, com a vitória oposicionista de Osasco, o sindicalismo começou a reagir às medidas intervencionistas, autoritárias e arrochantes do governo militar. Em Osasco, com base na Comissão de Fábricas da Cobrasma e a organização de base em outras empresas daquele município, a direção sindical toma a frente na luta contra o arrocho salarial e consegue envolver vários sindicatos e movimentos oposicionistas da Grande São Paulo, que, juntos criaram o MIA (Movimento Intersindical Anti-arrocho). Seu momento mais forte se deu pelo 1º de Maio de 1968, com ampla manifestação da Praça da Sé, ocasião em que a massa enfurecida rejeitou a presença do Governador “biônico”, Roberto de Abreu Sodré, expulsando-o do palanque. Tendo derrubado e incendiado o palanque, os trabalhadores saíram em passeata pela cidade gritando suas “palavras de ordem” contra a ditadura e suas medidas autoritárias.

Entre os meses abril e julho de 1968 aconteceram greves nas cidades de Contagem, abril, (MG) e Osasco em julho, esta com ocupação de fábricas, inclusive com a retenção da direção da Cobrasma dentro do prédio. Tal fato levou a repressão a agir com muito rigor e violência, derrotando o movimento grevista, promovendo a cassação da direção do Sindicato dos Metalúrgicos, prendendo vários dos seus membros e impondo a morte da Comissão de Fábrica. Em Contagem, na Grande Belo Horizonte (MG), não foi diferente. Prisões, cassação da direção e nomeação de interventores. Essa fase teve como seu ponto alto a decretação do AI-5 (Ato Institucional nº 5) que cassou os direitos civis e políticos de todos os cidadão e cidadãs brasileiros. A ditadura militar jogou água nas chamas do movimento operário brasileiro, mas não conseguiu extinguir suas brasas, que foram se propagando clandestinamente dentro de centenas de fábricas de São Paulo e seus arredores.

Em São Paulo, o Movimento de Oposição Metalúrgica foi se desenvolvendo gradativamente, a cada ano ganhando novos adeptos, ocupando espaços na vida legal do sindicato, formando e fortalecendo pequenos grupos dentro das empresas, ensaiando novas investidas contra as condições de trabalho e a gradativa redução salarial (que se dava com a decretação pelos militares de índices de reajuste salarial, sempre abaixo da inflação). No início dos anos 70, em várias fábricas da Grande São Paulo, pequenas e rápidas greves foram realizadas pelos operários que já haviam conseguido alguma organização. Novas formas de organização, à revelia da direção sindical, foram sendo criadas, como os encontros Interfábricas, as amplas assembleias para a escolha dos componentes das “chapas” de oposição, assim como um mínimo de planejamento para as intervenções nas assembleias sindicais oficiais.

Assim como em outros sindicatos o Brasil, em São Paulo foram criados vários instrumentos de comunicação entre a Oposição e os trabalhadores: panfletos, cordéis, jornais, revistas, folhetins com denúncias sobre problemas em fábricas específicas, que eram distribuídos clandestinamente, dentro e fora da empresa.

Outras formas da organização operária

Papel importante no processo de conscientização de operários e na sua inserção no movimento sindical, foram as escolas profissionais , criadas em vários bairros de São Paulo, algumas com a contribuição ou apoio logístico de paróquias e movimentos populares. Tais escolas tinham como objetivos qualificar profissionalmente seus alunos e oferecer-lhes formação política na perspectiva da solidariedade de classe.

Associações de Trabalhadores foram criadas pelos próprios operários em algumas regiões da cidade e foram espaços ideais para reunir trabalhadores, sem o risco da delação da direção sindical. Essas associações foram importantíssimas para o fortalecimento dos núcleos operários que se formavam na cidade, assim como espaços privilegiados no apoio à Oposição nas eleições sindicais.

Contribuição da Igreja Conciliar

Merece destaque o apoio da Igreja de São Paulo, tanto para os movimentos populares que se desenvolviam na periferia quanto para o movimento sindical de oposição. A formação da Pastoral Operária em 1970 contribuiu para esse apoio da Igreja ao movimento social, com a participação em larga escala da sua militância e de centenas de trabalhadores oriundos das Comunidades Eclesiais de Base (as CEBs), que contavam com o apoio decidido do seu Cardeal, D. Paulo Evaristo Arns.

A Pastoral Operária, iniciada em São Paulo, se espalhou por mais de uma centena de dioceses brasileiras e contribuiu para estimular e preparar seus militantes a participarem da vida sindical. Várias Oposições foram formadas a partir dos núcleos dessa pastoral e dezenas de sindicatos foram conquistados, com a consequente exclusão de diretorias pelegas. Alguns bons exemplos são os casos dos metalúrgicos de Campinas e Limeira, construção civil de Campinas, sapateiros de Franca e muitos outros em cidades como Recife, Porto Alegre, São Luiz, Ribeirão Preto e sindicatos rurais como o de Santarém (PA).

Entre os movimentos que nasceram e se desenvolveram com a contribuição das pastoris sociais e das CEBs da arquidiocese paulistana, merece destaque o Movimento contra a Carestia (depois passou a se ser “contra o custo de vida”), 1977/78. Nascido nas CEBs da Zona Sul, foram se espalhando pela cidade e arredores. Seu enfrentamento maior com a repressão se deu na Praça Sé, em 78, com forte esquema que incluiu cães, cavalaria, cassetetes, bombas de gás lacrimogênio e prisões (fato fielmente registrado pelo documentário “Braços Cruzados, Máquinas Paradas”). O Movimento contra o Custo de Vida é fruto do amadurecimento político das populações trabalhadoras dos nossos bairros periféricos e da insatisfação crescente do pov trabalhador com a ação dos militares.

Porém, centenas de operários que militavam na Oposição eram oriundos dos grupos políticos de esquerda existentes à época e encontraram nos militantes de origem cristã espaços para a prática do companheirismo, fazendo crescer a consciência e a solidariedade entre operários. Vários desses militantes passaram a trabalhar em outros ramos da produção, contribuindo para a formação das oposições em outros sindicatos. Como exemplo, em São Paulo, podemos citar o sindicato dos trabalhadores em Indústrias Químicas e de Plástico.

Resultados da persistência, esperanças e teimosia

Todo esse esforço e dedicação começaram a ganhar as ruas no ano de 1978, com as greves iniciadas na Scania (em S. Bernardo), que se propagaram pelo ABC e pela cidade de São Paulo. Na capital, foram cerca de 250 as fábricas metalúrgicas em que operários e operárias cruzaram os braços em vigoroso movimento reivindicativo, sem a participação da direção sindical, que já não gozava da confiança da maioria dos trabalhadores. As eleições sindicais daquele ano marcaram a ascensão da Oposição Sindical Metalúrgica e o declínio do peleguismo oficial. Eleições fraudadas e anuladas pelo escrutinador, que provocou nova e vergonhosa intervenção no sindicato, por obra do então Ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, que, mesmo com braço fraturado, promoveu a nomeação do interventor, validando o resultado do processo anulado por fraude escandalosa (conforme documentado pelo filme “Braços Cruzados, Máquinas Paradas”.

Em outubro do mesmo ano, ocorreu a primeira greve dos metalúrgicos da capital, depois de 1968, portanto, dez anos após o AI-5. Apesar da resistência da direção sindical, comandada pelo Joaquinzão, os milhares de trabalhadores presentes à assembleia sindical exigiram a decretação da greve, que resistiu à traição pelega por dois dias. No ano seguinte, em abril, a greve coletiva dos metalúrgicos do ABC e, em novembro do mesmo ano, a segunda greve dos metalúrgicos da capital, decretada após várias assembleias regionais: duas na sede sindical (Rua do Carmo) e a final, com milhares de trabalhadores, no antigo Cine Piratininga. No primeiro dia dessa greve, Santo dias da Silva, militante da Pastoral Operária e da Oposição Sindical, foi assassinado em frente à fábrica Sylvânia (no bairro de Sto. Amaro), pela bala do cabo Herculano. Assassinato que comoveu São Paulo, provocou o massivo cortejo funerário que percorreu o centro da cidade, até a catedral da Sé e que radicalizou o movimento grevista.

Formação da CUT e divisão política do movimento sindical

A ação persistente da organização no chão da fábrica, praticada pela militância da Oposição Sindical, contribuiu significativamente para o despertar da consciência operária em todo o país, mas especialmente na Grande São Paulo. Seu desdobramento se deu já no ano de 1978/80, com as greves dos metalúrgicos paulistas e do ABC, posteriormente reforçada pela ação de vários outros sindicatos pelo Brasil afora. Desse despertar classista resulta o movimento para a fundação de uma Central Sindical unitária, abortada em 1983 pela ação divisionista do peleguismo e de correntes oriundas do PCB. Em agosto de 83, sindicatos combativos e as oposições criaram a CUT e em novembro pelegos e divisionistas criaram a CGT. Divisão política do movimento sindical consumada.

A Oposição Metalúrgica continuou sua luta de denúncia do peleguismo, de combate aos ataques do capital e da ditadura, até o ano de 1993, quando disputou a direção do sindicato pela 8ª vez. A partir desse ano, os operários oposicionistas já tinham sido banidos das fábricas de São Paulo, fruto da delação sindical e da perseguição do capital. Encerrou seu ciclo de 26 anos de organização de base, de prática interna democrática e atuação nesse sindicato estratégico tanto para o capital quanto para a classe operária. O capital foi mais eficiente.

Dúvidas têm sido levantadas sobre quem, de fato, criou as riquezas de São Paulo. Para muitos, esse foi o papel do empresariado industrial, da construção civil, dos banqueiros, das empreiteiras e dos grandes comerciantes, porque investiram maciçamente na montagem de fábricas, na construção das torres que invadiram a cidade, nos conjuntos de moradia popular através de convênios com o BNH (Banco Nacional de Habitação) e assim por diante. Sem esse investimento maciço não haveria, portanto, trabalho para tantos trabalhadores. Para outros, todo esse investimento seria em vão sem o trabalho de operários e de trabalhadores de outros ramos. Para esses, empregador não participa da produção, ele explora a mão de obra alheia e cria a “mais valia” explicada por Marx. É possível dizer que as duas vertentes são verdadeiras, já que, no sistema capitalista, um setor depende do outro. Há que destacar essa interdependência nas áreas da produção de bens e dos serviços.

Porém, a construção da cidade, a partir da periferia, foi e continua sendo muito mais obra das inciativas e da polivalência dos trabalhadores, que, por seu trabalho e iniciativas geram moradias e estimulam o crescimento da produção dos bens necessários à construção. Por outro lado, quem tem o domínio sobre a política urbana é o capital, que consegue impor alterações na lei do uso do solo que permitem derrubar e reconstruir bairros inteiros, visando ampliar seus lucros através da especulação imobiliária.

Como se dá a acumulação do capital

Outro fator que precisa ser levado em conta é que o capital acumulado pelo empresariado investidor é fruto da histórica exploração da mão de obra alheia e da acumulação dos bens socialmente produzidos, ao longo dos milênios, e não distribuídos equitativamente para os que a produziram. Essa acumulação vai na contramão do que deveria ser uma verdadeira economia voltada, em primeiríssimo lugar, para atender às necessidades básicas e o bem estar de todos os seres humanos.

Se Marx conseguiu organizar e deixar registrado a teoria da “mais valia”, e com isso explicar como se dá a exploração do capital, é preciso dizer que muitos outros, em tempos bem remotos, com palavras diferentes, já faziam a denúncia da exploração do trabalho alheio, como Bem Sirac entre os anos de 190-180 antes de Cristo: “Enquanto você for útil, o rico o explorará, mas quando você precisar, ele o abandonará”... “Fará você ficar envergonhado nos banquetes dele, até despojá-lo duas ou três vezes. Por fim, vendo você, passará adiante e sacudirá a cabeça contra você” (Eclo. 13, 4-7). Qualquer semelhança com a atual realidade da cidade não pode ser considerada mera coincidência.

Esse debate faz parte da dominação ideológica do capital, que insiste em mostrar que apenas ele tem capacidade para construir riquezas e que os trabalhadores são seres inferiores, incapazes porque dependentes. Por isto mesmo dominam os meios de informação, os poderes políticos e conseguem deixar registrado para a História que os capitalistas são os autores do crescimento, sem revelar como isso se faz. Escrever a História segundo a ótica dos trabalhadores é deixar um rico legado cultural para as novas gerações.

 

Fonte: Artigo disponibilizado para nosso site diretamente pelo autor.

Waldemar Rossi

Waldemar Rossi foi coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo, membro da Pastoral Fé e Política da Região Episcopal Belém (ASP) e metalúrgico. Também trabalhou no campo como "boia-fria" e na construção civil. Atuando desde sua juventude nos movimentos pastorais católicos, já em 1960 foi coordenador da Juventude Operária Católica (JOC/Sul). Fez parte da Comissão de Justiça e Paz, atuou como sindicalista, foi Administrador Regional (Adm. Erundina/Mooca)e assessor parlamentar. Waldemar Rossi faleceu no dia 4 de maio de 2016, aos 83 anos.