PASTORAL FÉ E POLÍTICA

Arquidiocese de São Paulo

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Depredação não Encontra Fundamento na Narração Bíblica

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio da Campanha da Fraternidade, convida mais uma vez a refletir sobre a seriedade da questão ambiental e sobre a responsabilidade de todos no cuidado da natureza. Desta vez, trata do cuidado dos biomas brasileiros na dimensão da fraternidade. A interação do homem com os diversos biomas brasileiros tem relação direta com a defesa da vida e com a ética.

CF-2017Alguns entendem que a palavra bíblica dirigida por Deus ao homem – “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (cf Gn 1,28) – tenha sido uma autorização dada pelo Criador ao homem para que este avance sobre a natureza com sofreguidão e se aposse de suas riquezas...

No entanto, essa interpretação da bênção divina originária dada ao homem não é boa. O mundo foi, de fato, entregue aos cuidados do homem, mas para que este seja um aliado de Deus no cuidado e na administração da natureza. A imagem do jardim, no qual Deus colocou o homem, expressa bem essa ideia: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar” (cf Gn 2,8.15). Portanto, a depredação da natureza não encontra seu fundamento na narração bíblica da criação.

A reflexão sistemática do cristianismo sobre a temática ecológica é bastante recente, como também no âmbito geral da cultura, e se deve, sobretudo, aos papas mais recentes. O primeiro que expressou a preocupação ambiental num documento pontifício foi Paulo VI (1963-1978). Na encíclica Octogesima Adveniens (OA), de 1971, ele adverte: “Por causa da exploração irrefletida da natureza, o homem corre o risco de destruí-la e de se tornar, ele próprio, vítima dessa degradação” (OA 21). Paulo VI apontou consequências da degradação ambiental para o conjunto das condições de vida: poluição do ar e das águas, novas doenças e destruição do ambiente social. Com sua intervenção imprudente na natureza, o homem pode desencadear fatores que ele mesmo, depois, não consegue mais controlar e governar.
Não é bem isso que já vivemos com o aquecimento global e os problemas humanitários emergentes, menos de 50 anos depois dessa encíclica?

Para o mesmo pontífice, já não se trata de uma questão localizada, que interessa apenas a alguma cidade ou um país em particular, mas de um problema de toda a família humana. Por isso pede que os cristãos somem esforços com todas as demais pessoas, assumindo suas responsabilidades nessa causa comum a todos (OA 21).
São João Paulo IISão João Paulo II (1978-2005) tratou da questão em muitas ocasiões e em diversos documentos de seu magistério, desenvolvendo um pensamento ético sobre a questão ecológica. O homem é parte da natureza e precisa reconhecer as relações existentes entre todos os seres do mundo, não apenas por respeito às leis biológicas ou físicas, mas também por critérios e normas morais.

Na mensagem para o dia 1.° de janeiro de 1990, o papa tratou da paz do homem com Deus e com as demais criaturas, da degradação ambiental grave – “talvez irreversível” – em diversas partes do mundo, do aquecimento global e dos efeitos das mudanças climáticas, antes mesmo que esses conceitos fossem amplamente divulgados. “Indivíduos, Estados e organismos internacionais devem assumir as suas responsabilidades: trata-se de um dever da inteira família humana”. Falou ainda que o direito a um ambiente seguro deveria ser introduzido na Carta dos Direitos Humanos, que uma nova solidariedade nas relações entre os países desenvolvidos e em via de desenvolvimento é uma urgência moral.

A reflexão mais contundente desse papa sobre a moral ecológica se encontra na sua encíclica social Centesimus Annus, de 1991: “Na raiz da destruição insensata do ambiente natural há um erro antropológico, infelizmente, muito espalhado em nosso tempo”. A natureza sofre quando o homem se volta para ela com o desejo desordenado de possuí-la, qual senhor absoluto, ignorando que ela tem um significado originário, recebido do Criador. E então, “em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus e acaba por provocar a revolta da natureza, mais tiranizada que governada por ele” (n.º 37).

O papa Bento XVI em diversas ocasiões também manifestou uma percepção aguda das questões ecológicas. Na mensagem para o dia 1.º de janeiro de 2007 ele insistiu na relação inseparável entre ecologia da natureza, humana e social. Na encíclica Caritas in Veritate, de 2009, Bento XVI ampliou a reflexão para os vários aspectos jurídicos, econômicos, políticos e culturais da questão ambiental (n.º 48). E conclamou a uma nova solidariedade para a redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os países desprovidos deles possam ter aceso a eles” (n.º 48-49). E reiterou que a Igreja tem responsabilidades em relação à questão ambiental e deve fazer ouvir a sua voz em âmbito público (n.º 61).

O papa Francisco ampliou ulteriormente a reflexão teológica e ética sobre a temática ambiental, sobretudo na exortação apostólica Evangelii Gaudium, de 2013, e na encíclica Laudato sì – sobre o cuidado da casa comum, de 2015. Ele propõe uma ecologia integral, em que as questões ambientais, as humanas e as sociais caminhem juntas. Questiona a respeito do impacto presente e futuro do progresso econômico, das novas tecnologias e do sistema financeiro sobre os seres humanos e o ambiente. Denuncia a idolatria do dinheiro e das riquezas, que acaba por sacrificar a natureza e o próprio ser humano à sua lógica. Fala da cultura do desperdício e do descarte das pessoas, da urgência de unir esforços na busca de soluções para a grave crise ambiental. E incluiu a temática ecológica entre as questões candentes da doutrina social da Igreja Católica e da moral cristã.

 

DOM ODILO PEDRO SCHERER

CARDEAL ARCEBISPO DE SÃO PAULO

 

Fonte: Artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo em 11 de março de 2017, publicado na mesma data também no site da Arquidiocese de São Paulo.

Dom Odilo P. Scherer

Dom Odilo P. Scherer
Dom Odilo Pedro Scherer é Cardeal Arcebispo de São Paulo, mestre em Filosofia e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. É membro da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CNBB, membro do Colégio Cardinalício (Roma) e presidente do Regional Sul 1 (CNBB).