PASTORAL FÉ E POLÍTICA

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Violência no Campo

Hoje vamos ao sul do Pará. Infelizmente não é para comemorar. Há cinco dias, no sábado, dia 28, foi morto Herivelto Pereira dos Santos, 25 anos, integrante do assentamento Praialta-Piranheira, localizado no município de Nova Ipixuna, sul do Pará, o mesmo assentamento onde vivia o casal José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, executados na terça-feira anterior, dia 24. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, Herivelto também morreu com um tiro na cabeça e a arma seria do mesmo calibre da utilizada na execução do casal de extrativistas Zé Cláudio e Maria. Herivelto, que praticamente nasceu no assentamento Praialta-Piranheira, era casado e tinha quatro filhos. Este foi o quarto homicídio de trabalhador rural nos últimos cinco dias e três deles aconteceram no sul do Pará.


terra-02No próximo domingo, dia 05 de junho será comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente. José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo deram suas vidas em defesa do meio ambiente. Consideravam a floresta em pé como sua casa e lugar de produção do sustento familiar. Da floresta, sem derrubar árvores nativas, junto com outros moradores do assentamento, tiravam o sustento necessário para suas famílias, sempre atentos para que a floresta não sofresse desgaste pela ação humana. Madeireiros não entendiam esta defesa intransigente da floresta em pé. Ambiciosos, já haviam sido denunciados por José Cláudio, por desmatamento ilegal.

José Claudio e sua esposa Maria do Espírito Santo eram lideranças locais. Estavam no assentamento agro extrativista desde 1997 e trabalhavam com a extração de castanhas e óleo de andiroba. José Cláudio era líder da associação de camponeses e presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas. Amavam intensamente o meio ambiente onde viviam e estavam plenamente integrados a ele. Esta interação com a natureza, o cuidado de viver sem destruir o meio ambiente, a coragem em denunciar a agressão às florestas, questionam nossa passividade frente aos crimes ambientais que acontecem, diante de nossos olhos, na cidade de São Paulo.

Não entendemos o meio ambiente como nossa casa: continuamos a usar o carro particular entupindo vias, poluindo o ar, aumentando o ruído a níveis insuportáveis. Usamos da água como se ela fosse eterna. Entulhamos de lixo ruas, galerias pluviais, rios. O ar, a água e a terra e todos os seres vivos que nos rodeiam estão em rede com a vida de cada um de nós: nossa saúde e qualidade de vida dependem do que fizermos à natureza. Esquecemos os três RS: reciclar, reduzir, reaproveitar e consumimos sempre mais e mais, sem dar conta de que estamos degradando o meio ambiente e corrompendo nosso destino como ser humano. Mas, e principalmente, somos passivos, não nos indignamos, não exercemos a liderança à qual somos chamados como cristãos. Não profetizamos e não nos colocamos na defesa intransigente de toda violação de direito, seja de nossos irmãos e irmãs, seja da própria natureza.

irma-dorothy-01É preciso denunciar as ações de governo a serviço dos ricos, o sistema econômico cujo único objetivo é o lucro, a corrupção e os corruptores que embolsam dinheiro público. A Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, da CNBB, em declaração de repúdio ao assassinato de José Claudio e Maria considera que o fato tem repercussão internacional e traz à memória Chico Mendes e Ir. Dorothy (foto ao lado), vítimas do mesmo poder econômico que avança sobre as florestas. São palavras da Comissão: A violência que mata estas lideranças em nosso país, evidencia a urgência de um modelo de desenvolvimento que respeite e promova a riqueza das culturas tradicionais na proteção, convivência e produtividade dos povos da floresta.

No início deste mês, os bispos do Estado de São Paulo estarão reunidos em Assembléia, na cidade de Aparecida. Será momento importante para uma manifestação do episcopado paulista ao senado federal, a favor de um código florestal que preserve a vida e os meios de produção de quilombolas, indígenas, camponeses, extrativistas, pescadores e não anistie os que já desmataram florestas e cerrados. Na cidade de São Paulo, só a mobilização de pastorais, movimentos, paróquias em parcerias com outras entidades conseguirá a mudança no traçado do rodoanel norte, transporte público em quantidade e qualidade, a preservação das represas, a defesa dos parques, a coleta seletiva, o tratamento adequado ao lixo, o apoio e defesa à populações que estão sendo removidas pelos empreendimentos imobiliários.

Que o brutal assassinato de José, Maria e Herivelto, neste ano em que a Campanha da Fraternidade alerta para a gravidade dos ataques ao meio ambiente, não seja em vão. Que o testemunho de suas vidas, vividas em defesa do outro e da natureza, seja exemplo e impulso para a intransigente defesa de todos os direitos para todos e todas. Lembramos o número 185 do documento 99 da CNBB: “A fidelidade a nosso Deus e a fidelidade ao povo, de maneira especial aos mais pobres, exigem de nós a teimosa persistência de recriar as condições para que o céu, a água e a terra continuem sendo vivos e fonte de vida para todos e todas”.

FONTE: Artigo escrito por Carmen Cecília de Souza Amaral especialmente para o Programa Eleições em Notícias do dia 01/06/2011 (Rádio 9 de Julho AM 1.600 KHz - São Paulo/SP). O mesmo nos foi enviado diretamente pela autora e sua reprodução é autorizada pela Rádio 9 de Julho.

Caci Amaral

Caci Amaral
Carmem Cecília de Souza Amaral é coordenadora da Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo, sendo também integrante da Rede Nossa São Paulo e do Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE/SP). Para falar com Caci Amaral, utilize nosso formulário de contato.