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As Lágrimas não Podem ser em Vão

Desde quarta-feira passada o noticiário confirma os motivos da comoção nacional. A tragédia envolvendo crianças, adolescentes e um jovem desatinado mostra, novamente, a necessidade urgente de que as armas de fogo em poder da população sejam recolhidas e destruídas. O noticiário sobre a morte das meninas e de um garoto registra que o atirador tinha ainda muita munição e só foi contido pelo policial que, em ação preventiva próximo à escola, atendeu ao apelo dos garotos que fugiam.

Wadih Damous, presidente da OAB do Rio de Janeiro, afirma: “Uma tragédia como essa, infelizmente, acaba servindo de lição por conta da facilidade com que se consegue adquirir armas no Brasil. Esse rapaz (Wellington de Oliveira, autor dos disparos) não era membro de quadrilha, não era do crime organizado, era um descontrolado que tinha acesso com facilidade a uma arma”.

Damous lembra que a legalidade do porte de armas no Brasil é responsável por “tragédias domésticas diárias” e acaba abastecendo grupos criminosos. “Não há porque o cidadão, a sociedade civil estar armada. Quando o cidadão tenta usar a arma normalmente é morto ou tem a arma roubada e aumenta o poder de fogo dos criminosos”, afirma Damous.

desarmamento-01Em 2005, em um referendo sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munição, infelizmente, 63,94% dos brasileiros disseram não ao desarmamento, contra 36,06% que votaram pelo fim do acesso às armas. Na avaliação de Damous a retomada do debate nacional sobre o desarmamento poderia ser feita inclusive com a convocação de um novo referendo. “Essa é uma discussão que merece ser feita democraticamente. Um novo referendo seria oportuno e democrático.

Poderemos seguir o exemplo da Escócia que, em 1996, sofreu com brutalidade semelhante, quando um atirador matou 16 crianças e a professora de um jardim da infância. Em comoção pelo acontecido, a escola foi reconstruída e surgiram associações pedindo o desarmamento da população civil.

O Reino Unido, do qual a Escócia é um dos países integrantes, e que já tinha uma das legislações mais restritivas do mundo em relação a posse de armas de fogo, aprovou nova lei, mais restritiva ainda. No período de um ano, entre 2009 e 2010, 43 pessoas foram mortas por armas de fogo sendo 41 na Inglaterra e no País de Gales e duas pessoas na Escócia.

Insistimos, para preservar a vida é preciso radical mudança de mentalidade em relação ao porte e uso de armas de fogo. As comunidades católicas precisam retomar as campanhas feitas durante o referendo, incentivar a entrega de armas e apoiar a coleta e destruição das mesmas pela polícia. Segurança nas escolas sim, mas também segurança em toda a cidade, com policiamento preventivo.

Proibição de porte de armas de fogo, sim, proibição de venda de munição para armas de fogo, sim, campanha permanente para recolher e destruir as armas de fogo, sim, sempre em defesa da vida e vida em plenitude.

desarmamento-02De acordo Antonio Rangel, membro da ONG Viva Rio, existem cerca de 16 milhões de armas em circulação no país, das quais 14 milhões estão nas mãos da sociedade civil. Para Rangel, existe forte relação entre a redução de armas e a diminuição da mortalidade por homicídios. “Infelizmente, às vezes, é preciso uma tragédia para que as pessoas adquiram consciência do que significam as armas. Vamos torcer para que o que aconteceu no Rio não seja em vão. Notícias reforçam a esperança de que o país consiga rapidamente aprender com a tragédia

O ministro da justiça, José Eduardo Martins Cardoso, antecipou para 06 de maio o início da campanha de desarmamento prevista para junho, declarou que será formado um conselho gestor da campanha com a participação da sociedade civil e que pretende tornar a campanha de desarmamento uma política pública permanente.

Também o Congresso nacional se mobiliza.

Os deputados Alessandro Molon (PT), Dr. Carlos Alberto (PMN) e Stepan Nercessian, (PPS), da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, reuniram se no Rio com o diretor da escola e outras autoridades. Dentre as propostas, houve consenso em relação a endurecer as políticas públicas ligadas à restrição do uso e acesso à armas de fogo. O secretário de segurança do Rio de janeiro lembrou a necessidade de alterar a produção de munições ao ponto que fosse possível rastreá-las. Também seria criado, em todas as unidades policiais, um registro das armas e munições a serem utilizadas no dia, por meio de uma identificação biométrica.

Vamos dialogar e vencer preconceitos de cor, opção sexual, classe social. Vamos construir a cultura de paz, assegurando vida plena para todos e todas.


FONTE: Artigo escrito por Carmen Cecília de Souza Amaral especialmente para o Programa Eleições em Notícias do dia 13/04/2011 (Rádio 9 de Julho AM 1.600 KHz - São Paulo/SP). O mesmo nos foi enviado diretamente pela autora e sua reprodução é autorizada pela Rádio 9 de Julho.

Caci Amaral

Caci Amaral
Carmem Cecília de Souza Amaral é coordenadora da Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo, sendo também integrante da Rede Nossa São Paulo e do Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE/SP). Para falar com Caci Amaral, utilize nosso formulário de contato.